SONHO ANTIGO
A eleita, a quem o apaixonado, depois de um longo cerco, de trocas de olhares de carneiro mal morto, de tímidos galanteios em fortuitos encontros ou em simples cruzamentos de rua, quando já tinha o coração amolecido e disposta a aceitar o namoro, para que o mesmo se pudesse concretizar, falava em primeirolugar com a mãe.
Posteriormente, procurava criar uma situação em que, juntamente com a progenitora, se cruzasse com o rapaz na rua ( o mercado, lá em Moscavide, era o sítio mais apropriado) muito ruborizada e o coração a bater descompassado (tanto como o dele) lhe pespegava um pequeno beliscão no braço, ou uma cotovelada, como que a dizer-lhe é aquele, é aquele, limitando-se os dois apaixonados a trocar um sorriso e uma muda inclinação de cabeça, ficando o rapaz certo de que, cada vez que voltasse a cruzar-se com a eventual futura sogra, ia ser objecto de uma, nada discreta e muito incomodativa, mirada
Entretanto, já ela (a mãe) se tinha posto em campo para, por portas e travessas, colher informações acerca do rapaz: se de boas famílias, se empregado, se de vencimento razoável, se com bens ao luar (esse é que constituía o melhor certificado de garantia) se bem comportado, se saudável etc., etc.
Passava, depois (a mãe) a preparar o espírito do marido de que havia um rapaz, assim e assado (mas que ficasse tranquilo que ela já tinha investigado de que era pessoa aceitável), que pretendia namorar a filha e tal e tal e tal. E só depois disso, quando o pai se convencia (quase sempre contrariado) a escutar o rapaz, é que se marcava uma data para ele ir lá a casa pedir autorização para namorar e jurar a pés juntos a seriedade das suas intenções.
Começava então o namoro, à janela, com dias e horas marcadas. Imaginem o azar daqueles que a janela da rapariga ficasse num terceiro andar (esta era, então, a altura máxima dos prédios mais altos da localidade. Tive muitas vezes ocasião de ver o rapaz postado, não debaixo da janela da sua Julieta, pois a altura da mesma não permitia a qualquer ser humano permanecer muito tempo de cabeça pendida para trás, olhos torcidos e nariz no ar- a menos que de um contorcionista se tratasse - sem risco de grave torcicolo ou irreparavel delocamento da retina. Era, pois no passeio do lado oposto da rua que o apaixonado Romeu se especava tornando, pelo tom de voz a que a distância obrigava, desfrutáveis pela vizinhança inteira os respectivos arroubos de paixão, ou os obrigava a longos, prosaicos e desencorajadores silêncios.
Nesse aspecto, a sorte esteve do meu lado, uma vez que a janela do namoro me ficava à altura exacta do peito, numa rua sem saída, mal iluminada e, por isso mesmo, muito pouco frequentada, sobretudo de noite. É certo que havia uma lâmpada, mas situava-se um pouco distante, na esquina do outro lado da rua, mas essa aparecia partida com bastante frequência, o que constituía um grande aborrecimento para mim, como devem calcular.
Oh, doces tempos! Oh, saudosa janela! Passei lá recentemente. já não existe. Nem sequer a moradia de um só piso, substituída agora por um prédio de vários andares. Só após varias semanas desta modalidade de namoro é que chegava, às vezes, a permissão de namorar dentro de casa. Se pensam que isso era uma vantagem, uma espécie de promoção, desenganem-se. Na verdade era um suplício insuportável. Ali estava a famelga toda reunida e o parzinho muito enleado, um em frente do outro, a debitar umas palavras de circunstância, a falar do tempo, numa conversa de chacha em que, por vezes qualquer dos outros, parceiros metia o colherão.
Só vos digo que era uma estopada das antigas. Mas que se havia de fazer? Estas eram as regras comummente aceites. E a verdade, não vale a pena escamoteá-la, é que, por essa altura, eu estava bem longe de possuir o espirito crítico que mais tarde vim a adquirir e a minha escrita demonstra.
O que vale é que os costumes, felizmente evoluíram muito rapidamente, e nunca mais voltei a ter outro namoro sujeito a tal regimento.
De qualquer modo, este foi o namoro que me marcou. Claro, foi o primeiro. Além do mais, ela era linda de morrer. E eu estava completamente deslumbrado
SONHO ANTIG0
(à Maria I…)
Foi por ti que esperei, fada encantada
Que em sonhos de criança idealizei;
Foi a ti que em meus versos arrulhei
Requebros tristes de alma apaixonada-
Foi para ti só que eu conservei
Toda a força de amar em mim guardada;
A ti pertence, pois, idolatrada
Realização dos sonhos que sonhei
Deixa-me olhar teus olhos de encantar,
Aconchegar-te ao peito e escutar
A música dos teus lábios divinais,
E deixa que em mil beijos se traduza
Esta paixão ardente, linda musa,
Que em meu peito não pode caber mais!
1950
Imagem baixada do Google,data venia
33 Comments:
Que o teu dia seja igual para toda a humanidade: feliz.
Fazia-te agora 1 vénia e dançava esta valsa magnifica contigo António,um romantico incorrigível, e 1 homem lindissimo, com tantas histórias pre contar num salão cheio de damas e admiradores incondicionais..ahi..sei lá; entrei agora plos salôes adentro a esvoaçar com passinhos de balet..(beijo-vos o anel; visconde:.)
Por Deus Marquesa, que o anel
Que beijais, é pura imitação
Mas já que me aceitais nesse papel,
Me apraz valsar convosco no salão
Lindooooooooooo... não sabia que já tinhas postado porque costumas dar um intervalo de tempo maior.. ou é impressão minha? De qualqer modo, está divinal;os meus pais contaram-me muito dos namoros à janela. Mas que coisa António,não podiam dar um beijo na boca? uma apalpadela? com a familia toda a vigiar nhec.. ainda por cima uma mulher linda! se tivesses na altura uma botija de gás hilariante adormecias ali a famelga toda e raptavas a miuda ali para o descampado. Aii que era,era! De certeza que imaginação nao faltava! Beijossssssssssssssss
ahh.ahh.ahh..És unico António.. e siga a valsa..
Cada visita que faço ao teu Blog...meu amigo Manuel... é um prazer sem limites!
Esta narrativa do primeiro namoro...está encantadora... e recordo as histórias que as minhas tias relatam...Tudo se passava assim...
Eu, com 52 anos... também tive ( no inicio do namoro ) as mesmas atitudes...daí o achar uma certa Graça!
Ainda me recordo de ter autorização de Sò namorar á
janela!!
Ahhh... e estávamos no ano da graça de mil noventos e setenta e quatro :))
Mas na provincia...ainda havia um pouco e pudor, por parte dos pais... porque nós... mesmo namorando á janela...já havia uma certa rebelião... tal como a Revolução que aconteceu esse ano!
:))
Adoro as tuas histórias!
Beijinhos da
Maria
ANTÓNIO
DESLUMBRAS COM AS TUAS HISTÓRIAS REAIS. Ah...homem apaixonado.
Por cá, a última semana foi atribulada; começou muito mal, uma estadia de 24h no hospital; aos poucos foi melhorando... e, este sábado culminou no melhor possível.
Uma Amiga da blogoesfera que tinha conhecido há 2 semanas quando visitei o Algarve, sabendo do meu estado depressivo, ofereceu-se para ser minha companheira para um dia de lazer... que bom que foi, lógico que aceitei, é de muitos momentos como os de hoje que eu preciso.
...e, peço a Deus que pela minha vida fora eu encontre outras Antónias, Suzetes e outras Ivones como as genuínas que ontem conheci e, o bem que me fez estar na companhia delas.
Ofereço a elas e a todas as mulheres do Mundo, estas belas flores.
BOA SEMANA.
NOTA: estou a divulgar o «Jantar da Primavera» que se realizará dia 14 de Abril.
Olá Antonio estas historias de antigamente são mesmo uma ternura, não sei como era quando era criança, mas destes tempos apenas me lembro de estar á janela com as minhas criadas que namoravam com magalas, era divertido para mim via estes primeiros passos de namoro mas como era criança nada entendia do que eles diziam...os tempos passaram e quando chegou a minha vez, lembro-me que o meu pai me disse que ele teria que ir lá a casa, mas eu que já era de outra geração e muito rebelde de natureza lá me fiz de esquecida e fiz tudo a minha maneira...uma boa pascoa sofialisboa
Estos versos ¿los leyó su madre? Me parecen, amén de bellos, demasiado apasionados para esa época.
António! Adorei a descrição dos namoros de antigamente. Com os meus Pais foi mais ou menos assim : como sabes, moravam em frente um do outro. O meu Pai ia para uma das janelas com o binóculo observar a minha Mãe (que era lindíssima!). O encontro foi em casa duma prima (Maria Augusta)que morava em Moscavide, a propósito de umas músicas...depois o namoro foi em casa da minha Mãe, sempre como pau de cabeleira a minha Tia! Eh eh eh Adoro ouvir recordar esses tempos. Quanto ao teu soneto é uma delícia!! Muitos beijos para ti.
Olá! Aproveito para deixar os votos de uma Santa e Feliz Páscoa!
O texto que acabei de escrever tem por objectivo homenagear todos os meus familiares: Os vivos, os mortos e os que estão por nascer ainda. O mundo é muito, muito pequeno.. … quem sabe se esse cheiro a flores não te persegue e protege a ti também….Para Sempre!!!
Até breve
SE DEUS QUISER
olá António eu sou o tiago o filho da elsa nyny gostei do teu blog passa no meu blog www.tj98.blogspot.com
ainda hoje depois da tua ausência perguntei à nena no trabalho se essa valsa que vocês dançaram não tinha sido forte demais.É que a nena perde a cabeça às vezes.Mas ainda bem que voltaste querido António. Estamos todos felizes. Beijoss
Dom -por extenso-, António "de" Guedelhas, é o que quiz o destino conceder-te para que nos possas narrar os suculentos nacos da tua vida que in illo tempore viveste.
O nosso hermano, aqui arriba, bem observa que este belo poema teria que ser furtado aos olhos da bem dita madre ou muito rapidamente cantarias a "menina que estás à janela" :)
Ó António, ainda bem que os tempos mudaram!!!!
Adorei o final!
Beijinhos e boa Páscoa!
Se recordar é viver, por aqui sempre se vive calorosamente.
Desejo-te uma Páscoa de paz e...romantismo:))
Um grande beijinho.
Cruzo-me contigo, tantas vezes! Hoje deixo-te um abraço cheio de ternura, pelos romances e pela poesia. És um homem de maravilha!
António, é sempre um prazer entrar aqui e ler-te
hoje para além do belo poema que nos ofereces, narras com tanta ternura, como era namorar antigamente.
lembro-me dos meus pais me contarem como namoravam, para mim que sempre fui muito rebelde, acho que saltava a janela
ou "zarpava" sempre fiz tudo ao contrário do que queriam
li-te e encantei-me, quase que imaginei como era
e se chovesse António? não havia namoro?
acredito que tenham sido bons tempos, que os recordes com a tua doce ternura
é verdade ainda havia o pedido de autorização para namorar, rio-me porque a minha mãe não tinha o pai presente na altura queria namorar o meu pai, pois vivia em Angola, conta ela que foi o meu tio, irmão da minha mãe que fez o pedido
adorei ler-te
uma boa Páscoa para ti
um abraço meu
beijinhos
lena
Oh António, meu amigo António tens uma maravilhosa capacidade de me enternecer... enternecer mesmo com o coraçãozinho pequenino e apertadinho e os olhitos a derreter de encanto, imagino-me ali um cantinho mais abaixo assistindo ao teu namoro à janela, imagino os teus olhares apaixonadas, as tuas frases meio timidas, o teu coração a bater, os teus olhos encantados no encanto e na beleza da tua amada.
Tens saudades às vezes, eu também teria, acho que esses amores vividos junto às janelas, e o belo que nesses amores existia fez nascer muitos poetas, deu à luz muita poesia.
Depois há o teu outro maravilhoso dom, o de mostrares, retratares, criticares uma época... e de o fazeres tão bem que eu vejo todos os sitios, todos os cantos e ruelas de que falas.
Escreves com uma dose de critica social, uma dose de informação histórica, e uma dose de uma doce
saudade.
Sabes, gosto cada vez mais de ti.
Do coração.
PS. Vai ver o meu coração ao "Palavra puxa palavra" http://outrostemas.blogspot.com/
Apenas uma frase:
"Não há luar como o de Janeiro, nem amor como o primeiro".
Beijo
Estou aqui há quase uma hora a ler-te, ou seja, a ler todos os textos que colocaste, desde o meu último comentário.
É uma delícia ler-te! És um verdadeiro tratado de Vida...e a diversidade e o calor que imprimes a cada um deles, reporta-me a cada momento, e a cada época.
Saio daqui com um sorriso e com o coração cheio de ternura.
Grata pela forma como partilhas o teu sentir. Realmente a blogosfera é cada vez mais um local surpreendente, onde as palavras valsam ternamente perante o nosso olhar.
Um abraço carinhoso e uma feliz Páscoa para ti e todos os teus ;)
António,
O que acho mais lindo é essa sua forma de falar do amor. Já não existem homens asimm, com capacidade para amar.
Parabéns por sua forma de amar.
Beijinhos
Isto está a andar bem. Cães, gatos, mulheres...
Saudações e uma feliz Páscoa!
Venho desejar-te uma Santa e Feliz Páscoa....ANTÒNIO!!!
ahahha...agora não troquei os nomes...
Beijos da amiga
Maria
Caro António: muitas obrigações e pouco tempo, deu algum afastamento. Volto, sempre com prazer para ver a qualidade e inetresse do seu blogue. Boa Páscoa e boa semana.
Ah meu amigo António. Afastada como tenho andado, decidi ontem e hoje ler o muito que por aqui escreveu e não vou ser original em nenhuma palavra, mas ainda assim, repetindo o que todos já aui disseram, ecom toda a justiça: o António é encantador:) Um beijinho
De qualquer modo, este foi o namoro que me marcou. Claro, foi o primeiro
pois, isso diz tudo....belo texto!!!
Caro Amigo:
Por no comprender a cabalidad el portugués, imprimé para leer con atención la historia de Ninfa María (7 páginas). Se la he leído a mi mujer, y la disfrutamos mucho.
nosotros tenemos una gata llamada Michele (en homenaje a nuestra Presidenta)do Carmo (por ser de ascendencia portuguesa) Vieira Kusic.
Amigo António,
É sempre um prazer lê-lo, e um lugar comum escrevê-lo ou dizê-lo. Fiz a minha mãe revistar tudo à procura do romance "A Rosa do Adro", no intuito de lho emprestar. Como a sua mãe adorava aquele drama, se não conhece a história, talvez gostasse de ler o livro... Valeu a pena o esforço? Eu li o livro quando era "pequena" e conheço bem a história. Um beijo de todos nós para esposa e neto também.
Obrigado Carla, pelo seu esforço, mas na verdade eu conheço muito bem o livro, pois era eu que o lia para mi nha Mãe, A Rosa do Adro foi um dos romances mais populares que se escreveram este país, escrito em 1870 pelo jornalista Manuel Maria Rodrigues. Tão popular que virou peça de teatro e depois dois filmes de sucesso: um mudo em 1919 e outro falado, em 1938. Foi a versão muda que minha mãe viu.
António!!!
Como é bom ler-te!!!
O namoro á janela!! Que lindo!!
Vejo nas tuas palavras um coração, lindo! Lindo!!!
beijinhos!!
:))
Mais uma bela história de sentires que certamente a dificuldade do encontro física ainda exacerbava mais o desejo!
Bjs
TD
Querido amigo António, são encantadoras as doces lembranças que o teu baú abriga e que poemas lindos.
Sempre que por aqui passo, por vezes sem tempo para te deixar um abraço, sou envolvida por toda a ternura que por nós espalhas.
Bem hajas meu amigo.
Um bjinho grande e uma flor
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